Porque você TEM que ver Six Feet Under

Eu estou planejando um texto sobre este assunto há tempos, mas creio que, agora que eu acabei de ver o Series Finale (pela segunda vez na vida, na verdade, mas agora a série parece fazer muito mais sentido), eu estou no momento certo. Deixo de antemão que pode ser que eu lance coisas parecidas com Spoilers durante o texto. Nada demais, mas pode ser que aconteça. Mas aviso também que saber spoilers de Six Feet Under não costuma tirar nem 1% do impacto de ver como determinado fato acontece e vê-lo em cena. Não é uma série sobre segredos e revelações. Aliás, o único mistério que acontece, da 3ª para a 4ª temporada, é revelado de forma tão natural e sem nenhuma expectativa que acaba não sendo impactante.

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O que é Six Feet Under?

Six Feet Under é uma série norte-americana produzida pelo canal de TV à cabo HBO, que costuma ser uma chancela de qualidade para séries. Ganhou um fôlego extra na popularidade ultimamente, já que o criador (Alan Ball, oscarizado pelo roteiro de Beleza Americana) é o mesmo da famosa e atual True Blood (vampirozzz) e um dos protagonistas é feito por um ator bastante em voga atualmente, Michael C. Hall, o Dexter. Foi exibida entre os anos de 2001 e 2005, e possui 5 temporadas, cada uma com 12 ou 13 episódios. São episódios grandes, com duração entre 45 e 55 minutos, sendo que season finales costumam ser maiores ainda. A série acumulou uma porrada de indicações de prêmios do começo ao fim, e ganhou alguns bem relevantes. Mas isso não importa, já que há premiações que dão título a coisas duvidosas. É difícil obter uma sinopse exata da série, mas basicamente é uma série dramática (com toques de humor negro) sobre uma família que se enraizou e cresceu em cima do negócio próprio que, no caso, é uma funerária. Um fato inesperado que ocorre já no primeiro capítulo faz com que esta família tenha que lidar com uma espécie de reunião e com a convivência, que, aparentemente, há um tempo não existe. Como marca principal, a série tem apresenta o fato de que sempre começa mostrando uma morte – fato este que pode ter uma pequena ou uma relevante participação nos eventos ocorrentes nas vidas dos personagens. Não é uma série que dá pra assistir episódios avulsos, já que apresenta uma história contínua e infinitamente mais complexa do que o que pode se supor por um ou dois episódios avulsos. Mas nada disso realmente interessa.

O que realmente interessa?
Interessa que Six Feet Under é muito mais que uma série de TV. É um retrato contundente e com um nível de fidelidade absurdo sobre pessoas – muito mais do que 99% dos filmes são, já que já começa tendo como vantagem a duração de umas 50 horas. E, portanto, sobre a vida. E, como tudo aquilo que reflete sobre a vida, reflete também sobre a morte. É uma série que simplesmente não te ensina nada, não te passa absolutamente nenhuma mensagem sobre o que a vida deve ser. Mas sim, te mostra tudo (ou quase) do que a vida é. Às vezes a série te diz que você deve aproveitar a vida, porque ela é curta. Como uma frase tosca de mensagem do dia do Orkut. No mesmo episódio, ela pode te dizer que a vida não é nada disso. A vida é aquilo que você deixa pros outros. E, numa série de paradoxos, como é a própria vida, a série te incita a pensar. E pensar não-conclusivamente. Você não vai chegar a uma conclusão sobre nada. E isso é foda, porque nos incomoda tanto, justamente porque é uma verdade absoluta: a vida é completamente inconclusiva. E tem uma série de coisas incompreensíveis.

É quase uma tarefa estressante tentar convencer alguém a ver a série. Porque não há muito o que dizer, não há cenas ou pontos isolados que a façam parecer interessante. A série é ótima porque é sinérgica: todos os inúmeros elementos, discussões, tramas e subtramas se unem e formam um todo extremamente mais poderoso (e isso acontece durante todas as temporadas, é uma série extremamente constante no nível de qualidade). É uma série que fala demais de relacionamentos, mas não é uma série sobre isso. Fala muito sobre gays, mas também não é uma série gay. Fala sobre traição, sobre criação, sobre família, sobre fé, sobre violência, sobre arte. Mas não é uma série sobre nada disso.

Eu acho que a melhor forma de definir a série é o que um colega meu me disse. Eu o indiquei a série e o incentivei a vê-la. Ele viu e se interessou, mas aquilo que eu o dizia (mano, é muito foda!) não parecia fazer sentido. Não era tudo isso. E com o tempo ele foi mudando de idéia e comentando cada vez mais a respeito. Aliás, isso aconteceu com dois amigos. E cada vez ele foi concordando mais de que a série não é nada além de incrível. Porque é tudo tão real e, por mais que soe loucura em algumas partes, tão normal, que demora pra aquilo encantar. Não é como, sei lá, um mundo paralelo, não é como ficção, nada ali é fora do ambiente do dia-a-dia. E talvez a vida não seja encantadora. Além do que, os personagens demoram a se tornar pessoas. No começo, elas parecem alegorias, clichês e problemas específicos encarnados em alguém. E, com o tempo, você as vai vendo como pessoas. Como pessoas perfeitamente plausíveis. E acompanhar a vida deles torna-se um hábito como o de ver uma novela. Como a sua tia faz.

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Não ESSE tipo de novela

Simplesmente você sabe que eles não serão felizes para sempre no final.  Você sabe que eles podem ser uns canalhas a qualquer momento. E pessoas incríveis no outro. Você os vê sendo egoístas, e não importa se o personagem é o protagonista. Se alguma coisa ameaçar a vida deles, você fica tenso porque eles podem SIM morrer – ao contrário da mocinha da novela que VAI sobreviver não importando se um meteoro caiu na testa dela. Nada é óbvio.
Eu já pensei em milhões de definições centrais pra série e, não adianta, nenhuma é completa o suficiente. Esse texto mesmo ainda está superficial. Talvez o foco da série mude dependendo do personagem. Pode ser uma série sobre o processo de aceitação do fim e da morte (e aqui eu confesso que foi o ponto que sempre pegou pra mim), pode ser uma grande cartilha que ensine as pessoas que, sei lá, veem filmes demais do ashton kutcher que estar apaixonado e com um bom relacionamento não tem nada a ver com estar feliz – e que amar alguém também não se signfiica estar apto a relacionar-se com ela. Pode ser uma série sobre o fato de que tudo se vai e alguma hora pode acabar voltando.  Uma série sobre estar, na verdade, sempre sozinho. Sobre identificar e aceitar a sua parcela de egoísmo, e perceber que isso é humano. Sobre surtar diversas vezes e ainda ser perfeitamente comum e ordinário.
Como eu vou definir algo que simplesmente é sobre a vida e a morte? Duas coisas que ninguém consegue definir.

Só sei que acho genial perceber algumas coisas tão reais que dá vontade de mostrar pras pessoas e dizer “olha, não só eu que sinto isso, porra!”. A série acaba te familiarizando com o seu próprio lado solitário. É quase uma terapia, é uma ferramenta de auto-conhecimento. SIM, EU SOU UM PAGA PAU, DEIXA EU, PORRA!

Seja quando você se vê constantemente “preso”, como o Nate. Seja quando você acha que tem direito a uma vida particular, como a Claire. Seja quando você sente que tudo está sempre escapando das suas mãos, como a Ruth. Seja quando você simplesmente não consegue conter a vontade de fudida de trepar com alguém, não importanto todo o resto, como a Brenda. Seja quando você enlouquece e ainda assim não tem culpa disso, como o Billy. Ou então quando você só quer sair espancando todo o mundo, como o Keith. Você VAI se ver nesses personagens, em mais de um deles e em mais de uma vez.

Acho que o mundo seria mais interessante se tivessem menos pessoas vendo House e aquela ironia e profundidade humana extremamente plástica (e achando aquilo buuuniiito) e mais pessoas que vissem Six Feet Under, com a Claire dizendo que odeia todos e todo mundo e que não aguenta mais isso, ‘cause that sucks.

Enfim, isso é tudo que eu consigo dizer sobre a série antes que isso aqui vire artigo científico. Ainda sinto que não cheguei no 10% do que eu gostaria de dizer. E isso sempre acontece.
Enfim, veja a série, acompanhe a excelente trilha sonora, veja atores fudidos atuando, tenha vontade de ver a abertura boa pra caralho toda vez que vai ver um novo episódio e chore por, sei lá, uma meia hora no series finale.

Se você precisa de um exemplo sensorial que te convença, veja algum dos trailers promocionais (o 3 e o 4 são os melhores) das temporadas pra perceber que o cuidado que os produtores tinham com tudo relacionado a série só podia denunciar algo incomumente bom.

Enfim, vi pouquíssimas séries completas na vida e ainda assim já sei que provavelmente não existe uma melhor. Assim quando você conhece alguém, se apaixona e tem certeza de que não deve haver alguem mais foda. É plausível, não é?

Six Feet Under, 2001-2005.

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11 Comentários em “Porque você TEM que ver Six Feet Under”

  1. donafartaa Diz:

    Minha irmã viu a série há algum tempo e no Natal de 2010, me deu todas as temporadas de presente.

    Achei que houvesse algum exagero na empolgação dela quando repetia exaustivamente “Você PRECISA ver Six Feet Under”, e por N fatores como correria, trabalho, blablabla, os DVD´s foram para a gaveta e lá ficaram por mais de 1 ano, sem que eu tivesse tempo ou coragem de começar a ver do 1o. episódio pra tentar pegar gosto e acompanhar.

    Somente agora, num tedioso dia deste começo de 2012, resolvi desenterrar os DVD´s e dar uma chance à série.

    O resultado é que não consigo deixar minha irmã em paz com os comentários que mando por SMS toda hora a cada episódio que vejo, e também faz alguns dias que tenho dormido pouquíssimas horas porque simplesmente não consigo ir deitar sem deixar tudo continuar rolando, como se fosse minha própria vida em algum tipo de perspectiva. Não consigo parar de ver, estou completamente envolvida e isso porque estou apenas no começo da 2a. temporada.

    Sensacional! Volto pra deixar outro comentário quando terminar de ver!

    Abraços!

  2. Jerri Diz:

    Matou a pau com sua reflexão, mesmo não tendo dito 10% do que a série é, eu não disse nem 1% na minha :-(

    E quanto a séries ducaralho, sugiro ROMA e TWIN PEAKS, que junto com essa, são as 3 melhores que já vi na vida.

    Paz.


  3. [...] Se você ficou em dúvida e tiver paciência dê uma olhada em duas “críticas” sobre a série : Cinemabox e Desfoque [...]


  4. [...] elenco assombroso, o realismo absurdo e o roteiro fodido. E com todo o puxassaquismo que eu já fiz neste post. E Six Feet Under me lembra séries, que me lembra a série que eu tô vendo agora, Battlestar [...]

  5. claudio Diz:

    quando essa série começou a passar no sbt eu fiquei louco pra assistir,mas devido a outros compromissos ( trabalho) não pude acompanhala.mas eis que graças a pirataria mais uma(a ultima pra ser mais exato)locadora aqui da minha vila faliu e adivinhe,as 5 temporadas de six feet under em ótimo estado no valor de 20 reais cada(de uma coisa tão ruim tinha que vir uma boa não é mesmo). me junto ao coro que proclama a série como a melhor de todos os tempos,e olhe que só estou na segunda temporada !

  6. Silvio Diz:

    Eu não sei… fico perguntando como uma série com um tema tabu (morte) conseguiu espaço num canal que faz parte do mainstream da comunicação e entretenimento global.
    Na minha opinião é a melhor séries de todos os tempos, porque aborda de forma corajosa a nossa vida (que não é perfeita) e te diz o tempo inteiro : você vai morrer também! Impossível alguém sair da série ileso, sem ter pensado nos diversos temas abordados na série. Nunca vi alguma série abordar com tanta verossimilhança o tédio, o vazio que existe na vida das pessoas em algum momento de suas vidas. Por exemplo: tem uma cena em que uma mulher mata o marido com uma golpe violento de frigideira na cabeça. É hilariante, é humor negro, mais é massacrante também…
    Eu não me importo mais em indicar a série pra ninguém, porque qualidade e conteúdo são coisas cada vez mais rejeitadas pelo “grand” público, que quer ver coisas empacotadas, artificiais, superficiais, “bunitinhas”, pra se divertir sem compromisso, ou espantar o tédio, muito diferente do que Six Feet Under faz: jogar toda a nossa própria humanidade em nossa cara. E nisso são perfeitos.

  7. Fabio Diz:

    Ufa, foi quase um artigo científico sobre séries…Hheheheh
    Brincadeiras à parte. Gosto mto destas indicações “undergounds”. Pessoas indicando House existem VÁRIAS, pessoas indicando Six Feet Under até agora só vc. É uma pena que não tenho o maldito canal, então vou ter que torcer para alguma emissora brasileira comprar, rezar para não haver cortes e suplicar que a dublagem seja bem feita.
    Atualmente estou gostando de séries, me viciei em Heroes, principalmente depois de descobrir que não se trata de uma série de super-heróis e sim sobre poderes e como eles poderiam ser nocivos se existissem. É um outro olhar sobre o tema. Pelo visto essa é a proposta da série em questão.

    Obs.: o fato do roterista ser o mesmo de Beleza Americana já é um GRANDE indício de que sua sugestão é boa.

    • isaac Diz:

      passa no sbt, em horários obscuros :p
      a dublagem é ótima. a melhor em séries, junto com sopranos, oz e a maioria que é feita pela hbo.

      rapaz, alugue ou baixe. vale a pena até comprar.


  8. Dessa vez eu estava mais suscetível a chorar haha chorei por uns 15 minutos de sair lágrima mesmo

  9. isaac Diz:

    tu chorou dessa vez no final? :p
    quando eu vi, chorei seco naquela hora que foca nos olhos da claire.


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