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Gravidade – Pt.I

13/03/2012

Todos os corpos estão sempre atraindo-se uns aos outros, chocando-se contra si em constante atritamento. Os corpos maiores e os corpos menores se ajuntam naturalmente, mas só o menor desloca. Jenifer pensava no seu baço – ele por esse nome engraçado pra uma tripa – como um corpo maior que atraía todas as hemoglobinazinhas da sua perna pra baixo, fazendo-a sentir uma pressão suave e agradável na barriga.

Os cabelos claros estavam quase chegando ao chão, enquanto o pescoço estava torto, distorcido, com a pele sob a garganta bastante repuxada. Os pézinhos pretos estavam no ponto mais alto que podiam alcançar da parede, manchando de quintal a parede alva, limpa por D. Judith pelo menos umas 2 vezes por semana. Brincando com as pernas, Jenifer tomava o resto de sol que conseguia enquanto a tarde ia embora, catando siriluias que entravam pelo vitrô e caíam no chão, anunciando que o lanche era próximo: pão fresco, salsicha ao molho, batata frita, o lanche de sexta que ele esperava desde a terça feira de manhã, que era o dia do bolo de brigadeiro da D. Judith. Conforme a cortina mudava de cor, de dourado pro marrom, as siriluias infestavam o chão liso da salinha, fazendo Jenifer pensar que talvez fosse hora de sair dali. Puxou a cortina pela qual estava escondida devagarinho, pra ver se não tinha ninguém inesperado nos cômodos próximos, enquanto vestia um chinelinho velho, rosa acinzentado pelo tempo e pela sujeira. Resolveu correr para o banheiro, porque estava com cheiro do Patá sem banho por uma semana, o que sempre deixava ela enjoada depois de um tempo; mais que isso, precisava ver como ia o espaço entre os dentes da frente, que o dolorido tratamento dentário tentava dar conta de diminuir.

Com as mãos enfiadas na bolsinha de crochê velha que ganhara da avó no natal de uns 4 anos atrás, caminhava silenciosa por entre os corredores da casa larga, alta e de piso frio, pensando, mais do que nunca, no cachorro quente de mais tarde. Sem um barulho de porta ou de calçado no chão que anunciasse, vozes se pronunciaram alto na sala de visitas, que era parte do caminho ao seu banheiro. Haviam 2 ou 3 homens ali, talvez 4, por azar. Eram indistinguíveis os timbres, pois ecoavam pelo corredor de certa forma distorcidos, como se formassem uma horda de ogros no meio de uma clareira, bebendo canecas enormes de bebida. Pareciam ter chegado há pouco, e pareciam também empolgados com algo grandioso – ao que Jenifer pensou ser a hora ideal de pedir ao pai aquele livro de colorir caro que estavam vendendo no colégio, já que ele parecia feliz. Mas não, haviam 2 ou 3 pessoas ali que não deveriam estar ali, e seu pai estaria ocupado demais pra servir de esconderijo com suas calças jeans largas e casacões pesados. Não podia ser percebida em sua rápida passada pela sala, então resolveu engatinhar até de trás do sofá, por trás do grupo. Pretendia se esgueirar por toda a sala, até atingir a porta oposta da qual entrara, e que lhe daria o aval de liberdade para o banho, o cachorro quente e a diária checagem nos dentes. Sem interrupções, e notas desagradáveis sobre já estar uma mocinha, e promessas de presentinhos que seriam esquecidas.

Pegou os chinelos com a mão, encostou o joelho ralado no piso de taco e torceu pro Patá não aparecer justo naquela hora, fazendo com que o ardiloso plano fosse por água abaixo.