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Porque você TEM que ver Six Feet Under

02/05/2010

Eu estou planejando um texto sobre este assunto há tempos, mas creio que, agora que eu acabei de ver o Series Finale (pela segunda vez na vida, na verdade, mas agora a série parece fazer muito mais sentido), eu estou no momento certo. Deixo de antemão que pode ser que eu lance coisas parecidas com Spoilers durante o texto. Nada demais, mas pode ser que aconteça. Mas aviso também que saber spoilers de Six Feet Under não costuma tirar nem 1% do impacto de ver como determinado fato acontece e vê-lo em cena. Não é uma série sobre segredos e revelações. Aliás, o único mistério que acontece, da 3ª para a 4ª temporada, é revelado de forma tão natural e sem nenhuma expectativa que acaba não sendo impactante.

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O que é Six Feet Under?

Six Feet Under é uma série norte-americana produzida pelo canal de TV à cabo HBO, que costuma ser uma chancela de qualidade para séries. Ganhou um fôlego extra na popularidade ultimamente, já que o criador (Alan Ball, oscarizado pelo roteiro de Beleza Americana) é o mesmo da famosa e atual True Blood (vampirozzz) e um dos protagonistas é feito por um ator bastante em voga atualmente, Michael C. Hall, o Dexter. Foi exibida entre os anos de 2001 e 2005, e possui 5 temporadas, cada uma com 12 ou 13 episódios. São episódios grandes, com duração entre 45 e 55 minutos, sendo que season finales costumam ser maiores ainda. A série acumulou uma porrada de indicações de prêmios do começo ao fim, e ganhou alguns bem relevantes. Mas isso não importa, já que há premiações que dão título a coisas duvidosas. É difícil obter uma sinopse exata da série, mas basicamente é uma série dramática (com toques de humor negro) sobre uma família que se enraizou e cresceu em cima do negócio próprio que, no caso, é uma funerária. Um fato inesperado que ocorre já no primeiro capítulo faz com que esta família tenha que lidar com uma espécie de reunião e com a convivência, que, aparentemente, há um tempo não existe. Como marca principal, a série tem apresenta o fato de que sempre começa mostrando uma morte – fato este que pode ter uma pequena ou uma relevante participação nos eventos ocorrentes nas vidas dos personagens. Não é uma série que dá pra assistir episódios avulsos, já que apresenta uma história contínua e infinitamente mais complexa do que o que pode se supor por um ou dois episódios avulsos. Mas nada disso realmente interessa.

O que realmente interessa?
Interessa que Six Feet Under é muito mais que uma série de TV. É um retrato contundente e com um nível de fidelidade absurdo sobre pessoas – muito mais do que 99% dos filmes são, já que já começa tendo como vantagem a duração de umas 50 horas. E, portanto, sobre a vida. E, como tudo aquilo que reflete sobre a vida, reflete também sobre a morte. É uma série que simplesmente não te ensina nada, não te passa absolutamente nenhuma mensagem sobre o que a vida deve ser. Mas sim, te mostra tudo (ou quase) do que a vida é. Às vezes a série te diz que você deve aproveitar a vida, porque ela é curta. Como uma frase tosca de mensagem do dia do Orkut. No mesmo episódio, ela pode te dizer que a vida não é nada disso. A vida é aquilo que você deixa pros outros. E, numa série de paradoxos, como é a própria vida, a série te incita a pensar. E pensar não-conclusivamente. Você não vai chegar a uma conclusão sobre nada. E isso é foda, porque nos incomoda tanto, justamente porque é uma verdade absoluta: a vida é completamente inconclusiva. E tem uma série de coisas incompreensíveis.

É quase uma tarefa estressante tentar convencer alguém a ver a série. Porque não há muito o que dizer, não há cenas ou pontos isolados que a façam parecer interessante. A série é ótima porque é sinérgica: todos os inúmeros elementos, discussões, tramas e subtramas se unem e formam um todo extremamente mais poderoso (e isso acontece durante todas as temporadas, é uma série extremamente constante no nível de qualidade). É uma série que fala demais de relacionamentos, mas não é uma série sobre isso. Fala muito sobre gays, mas também não é uma série gay. Fala sobre traição, sobre criação, sobre família, sobre fé, sobre violência, sobre arte. Mas não é uma série sobre nada disso.

Eu acho que a melhor forma de definir a série é o que um colega meu me disse. Eu o indiquei a série e o incentivei a vê-la. Ele viu e se interessou, mas aquilo que eu o dizia (mano, é muito foda!) não parecia fazer sentido. Não era tudo isso. E com o tempo ele foi mudando de idéia e comentando cada vez mais a respeito. Aliás, isso aconteceu com dois amigos. E cada vez ele foi concordando mais de que a série não é nada além de incrível. Porque é tudo tão real e, por mais que soe loucura em algumas partes, tão normal, que demora pra aquilo encantar. Não é como, sei lá, um mundo paralelo, não é como ficção, nada ali é fora do ambiente do dia-a-dia. E talvez a vida não seja encantadora. Além do que, os personagens demoram a se tornar pessoas. No começo, elas parecem alegorias, clichês e problemas específicos encarnados em alguém. E, com o tempo, você as vai vendo como pessoas. Como pessoas perfeitamente plausíveis. E acompanhar a vida deles torna-se um hábito como o de ver uma novela. Como a sua tia faz.

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Não ESSE tipo de novela

Simplesmente você sabe que eles não serão felizes para sempre no final.  Você sabe que eles podem ser uns canalhas a qualquer momento. E pessoas incríveis no outro. Você os vê sendo egoístas, e não importa se o personagem é o protagonista. Se alguma coisa ameaçar a vida deles, você fica tenso porque eles podem SIM morrer – ao contrário da mocinha da novela que VAI sobreviver não importando se um meteoro caiu na testa dela. Nada é óbvio.
Eu já pensei em milhões de definições centrais pra série e, não adianta, nenhuma é completa o suficiente. Esse texto mesmo ainda está superficial. Talvez o foco da série mude dependendo do personagem. Pode ser uma série sobre o processo de aceitação do fim e da morte (e aqui eu confesso que foi o ponto que sempre pegou pra mim), pode ser uma grande cartilha que ensine as pessoas que, sei lá, veem filmes demais do ashton kutcher que estar apaixonado e com um bom relacionamento não tem nada a ver com estar feliz – e que amar alguém também não se signfiica estar apto a relacionar-se com ela. Pode ser uma série sobre o fato de que tudo se vai e alguma hora pode acabar voltando.  Uma série sobre estar, na verdade, sempre sozinho. Sobre identificar e aceitar a sua parcela de egoísmo, e perceber que isso é humano. Sobre surtar diversas vezes e ainda ser perfeitamente comum e ordinário.
Como eu vou definir algo que simplesmente é sobre a vida e a morte? Duas coisas que ninguém consegue definir.

Só sei que acho genial perceber algumas coisas tão reais que dá vontade de mostrar pras pessoas e dizer “olha, não só eu que sinto isso, porra!”. A série acaba te familiarizando com o seu próprio lado solitário. É quase uma terapia, é uma ferramenta de auto-conhecimento. SIM, EU SOU UM PAGA PAU, DEIXA EU, PORRA!

Seja quando você se vê constantemente “preso”, como o Nate. Seja quando você acha que tem direito a uma vida particular, como a Claire. Seja quando você sente que tudo está sempre escapando das suas mãos, como a Ruth. Seja quando você simplesmente não consegue conter a vontade de fudida de trepar com alguém, não importanto todo o resto, como a Brenda. Seja quando você enlouquece e ainda assim não tem culpa disso, como o Billy. Ou então quando você só quer sair espancando todo o mundo, como o Keith. Você VAI se ver nesses personagens, em mais de um deles e em mais de uma vez.

Acho que o mundo seria mais interessante se tivessem menos pessoas vendo House e aquela ironia e profundidade humana extremamente plástica (e achando aquilo buuuniiito) e mais pessoas que vissem Six Feet Under, com a Claire dizendo que odeia todos e todo mundo e que não aguenta mais isso, ‘cause that sucks.

Enfim, isso é tudo que eu consigo dizer sobre a série antes que isso aqui vire artigo científico. Ainda sinto que não cheguei no 10% do que eu gostaria de dizer. E isso sempre acontece.
Enfim, veja a série, acompanhe a excelente trilha sonora, veja atores fudidos atuando, tenha vontade de ver a abertura boa pra caralho toda vez que vai ver um novo episódio e chore por, sei lá, uma meia hora no series finale.

Se você precisa de um exemplo sensorial que te convença, veja algum dos trailers promocionais (o 3 e o 4 são os melhores) das temporadas pra perceber que o cuidado que os produtores tinham com tudo relacionado a série só podia denunciar algo incomumente bom.

Enfim, vi pouquíssimas séries completas na vida e ainda assim já sei que provavelmente não existe uma melhor. Assim quando você conhece alguém, se apaixona e tem certeza de que não deve haver alguem mais foda. É plausível, não é?

Six Feet Under, 2001-2005.